LYGIA FAGUNDES TELLES: ESSA DAMA, ESSES OLHOS, ESSA OBRA: ALGUNS TEMAS E O HOMOSSEXUALISMO EM SEUS LIVROS

 

Suênio Campos de Lucena - UNEB

 

 

Escritora brasileira das mais significativas deste século, a paulista Lygia Fagundes Telles construiu uma obra em que explora criticamente o sistema burguês contemporâneo, sob o ponto de vista da família e de protagonistas (narradoras) essencialmente femininas, sobretudo em seus quatro romances[1]. Neles, ganham destaques as temáticas da morte, da velhice e da solidão. Neste trabalho, entretanto, pretendemos chamar a atenção para o tema do homossexualismo, ainda pouco explorado pela crítica. Como veremos, se ele não tem grande destaque também não deve ser descartado em sua obra.

Lygia Fagundes Telles desponta em 1954 (após três livros publicados e nunca reeditados) numa geração capitaneada por Guimarães Rosa e Clarice Lispector[2]. Com um cenário sempre urbano, a autora explora uma linguagem em que o fluxo do narrador se apresenta de forma não-linear, fragmentado, e a sintaxe muitas vezes é desprezada. Em geral, os diálogos surgem em forma de discurso direto, percebidos através da pontuação. De influência machadeana, a autora nunca dispensou a ironia, o ambíguo, o humor sutil, exercitando um texto que acontece via monólogo interior.

Sua literatura é reconhecida pela insistência em alguns temas, como a morte, presente nos contos Venha Ver o Pôr-do-sol, Antes do Baile Verde, A Testemunha, Natal na Barca etc. Em geral, está permeada pelos elementos do grotesco, do mistério e do suspense, as vezes carregada de fatalidade e culpa. Contos como As Formigas, Venha ver o Pôr-do-Sol, Antes do Baile Verde, Natal na Barca e Boa-Noite, Mariarefletem grande pulsão pela morte, que estão repletos de angústia e solidão interior.

O sentimento (ou a sensação) de solidão aparecem ainda nos contos Senhor Diretor, Um Chá Bem Forte e Três Xícaras, Uma Branca Sombra Pálida etc. Solidão que paira interditando o desejo do outro, da espera desse outro, que pode levar à loucura, como a personagem Laura, de Ciranda de Pedra; a um processo de amadurecimento, como Rosa Ambrósio, de As Horas Nuas; ou expor a alienação, como no conto Senhor Diretor.

Além da morte e solidão, temos ainda os elementos do fantástico e do mistério (Venha ver o Pôr-do-Sol, Antes do Baile Verde, Tigrela, WM, A Mão no Ombro, As Formigas, A Caçada), e uma forte marca da autora, que é o registro da decadência da burguesia brasileira, sobretudo, paulistana.

Agora, vamos centrar nosso enfoque na sua abordagem à questão homossexual.

Apesar da recente febre em torno da homotextualidade e das discussões sobre gênero e alteridade, em parte permitidos pelos estudos culturais que pululam nos cursos de Letras, ainda é perceptível uma certa resistência ao tema, colocado à margem do cânone acadêmico. Isso ocorre, em parte, devido ao preconceito que gera o equívoco em achar que só se interessa (e escreve) sobre homossexualismo (até mesmo em se tratando de ficção literária) quem seguiria uma orientação homossexual- A afirmação parece risível, mas decerto ainda afugenta alguns incautos pesquisadores tupiniquins.

Talvez por isso a escritora venha surpreendendo a crítica por tratar do tema sem subterfúgio. Apesar de estarmos chamando atenção para esse item não é de hoje que ele aparece em sua obra. Há quase meio século, em 1954, ela causou frisson com o romance Ciranda de Pedra, tido pelo crítico Antonio Cândido como marco da sua maturidade literária. Nele, além dos temas do adultério, loucura e rejeição, encontramos ainda o homossexualismo feminino. No caso, a tenista Letícia, que se insinua para a protagonista Virgínia:

 

Virgínia deteve o olhar mortiço na face árida da amiga. Os cabelos cinzentos eram de Conrado. Os cabelos e os olhos de cantos tristemente caídos. Afroxou os músculos e relaxou a posição tensa no momento em que sentiu a boca de Letícia roçar-lhe pelo pescoço e subir lenta até alcançar-lhe os lábios. Entregou-se passiva ao beijo demorado.[3]

 

Ao encontrar Letícia, Virgínia recorda da sua infância, por ter sido separada da amiga Ofélia no internato:

 

Nos primeiros anos tivera como companheira um encantador diabrete, Ofélia. Mas deram-se tão bem que a freira achara indispensável separá-las. Ofélia passara a outra ala, quase nem podiam mais se ver, até que um dia, meio vagamente, soubera que os pais a tinham levado para outro colégio.[4]

 

É interessante destacar que o tema não aparece restrito a uma condição marginal, representado por uma personalidade doentia ou pervertida, algo comum na época. Ele estará, ao contrário, imbrincado na história como mais um item a ser desenvolvido pela autora. Talvez por isso, Virgínia só descubra a condição de Letícia ao chegar na sua casa e flagrá-la com a namorada: “A verdade atingiu-a de chofre. Então, era isso. Agora entendia os risinhos ambíguos de Otávia, as advertências reticentes de Bruna, as ironias de Afonso, as preocupações de Conrado.[5]”.

Da mesma forma que Ciranda de Pedra, no romance As Meninas há diversas referências à condição homossexual feminina. Assim como Virgínia, uma das três protagonistas, Lia de Melo Shultz (Lião), viveu uma experiência com mulheres.

No livro, sua amiga Lorena narra de forma prosaica a sua estranheza diante do (quase) nu masculino:

 

O horror que tenho de cueca, a começar pelo nome. Por mais bacaninhas que elas sejam, fico no maior constrangimento quando vejo no cinema um artista de cueca. Não sei mesmo porque ele tem que passar a fita inteira com essa cueca branca, queixei-me à Lião. (...) Enquanto comíamos um sanduíche, Lião deu as explicações dela: ‘Não sei explicar, mas parece que todos os diretores de cinema são agora bichas e bicha tem mais obsessão por pau do que mulher, entende’. Falei-lhe do meu complexo com cueca mas nesse ponto ela já ramificava a conversa para a política.”[6]

 

Em ambos os livros, o homossexualismo feminino tem destaque e aparece permeado de ternura, afeto e humor, ao contrário do masculino, descrito com ironia e cinismo. Em geral, diga-se de passagem, são personagens secundários, mas que revelam um pouco como o senso comum (brasileiro) vê o gay, em situações permeadas de preconceito e certo desprezo.

Além de Ciranda de Pedra e As Meninas, poderemos encontrar várias referências homoeróticas na obra lygiana. No conto Pomba Enamorada, a caracterização do cabeleireiro Rôni, que ajuda a sua assistente a conquistar “o homem da sua vida” – o rude mecânico Antenor –, é a do homossexual afetado. Agindo como mero figurante, seus conselhos estão permeados de humor e sub-texto homossexual:

 

Ele é muito macho, comentou Rôni com um sorriso pensativo.

(...) A gente sente uma coisa, diria o Rôni mais tarde, revirando os olhos. Você tem que dar logo, os de Touro falam muito na lua, nos barquinhos, mas gostam mesmo é de trepar”.[7]

 

Assim, a abordagem homossexual em Lygia (burlesca, curiosa, sem aprofundamento na situação individual dos personagens) flagra algo comum no nosso cotidiano, quando a condição gay é sinônimo de xingamento, lembrada a partir de expressões pejorativas, como reage, por exemplo, a personagem Tatisa (do conto Antes do Baile Verde), dividida entre ir pro Carnaval e cuidar do pai doente. Ao xingar o médico do seu pai, ela reitera o pensamento corrente: “Aquele médico miserável. Tudo culpa daquela bicha. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa, eu disse que não sei tratar de doente[8]”.

Se neste texto, assim como em Pomba Enamorada, temos a ignorância e o preconceito (velado) da personagem, o tema também aparece em Tigrela (conto do livro Seminário dos Ratos), dessa vez envolvido pelos elementos do mistério e do fantástico. Aqui, a personagem Romana demonstra tendências homossexuais latentes através de uma paixão a uma gata de estimação, que mantém uma “relação” de ciúme com a dona, seja afugentando as pessoas ou reagindo de forma possessiva e dominadora. O final sugere um suicídio, assumindo o animal uma forma híbrida de mulher e bicho.

No livro As Horas Nuas enquanto a atriz decadente Rosa Ambrósio narra sua vida e seus amantes temos a presença quase onipotente do seu gato Rahul. Além de interlocutor e de ser um dos narradores do livro, Rahul, como qualquer gato que se preze, teve várias vidas. Dentre elas, foi um poeta romano gay.

Em Invenção e Memória, livro recém-lançado, há também implicações homoeróticas no conto O Velho e o Menino.

Mas, se em todos esses livros o tema aparece de forma acessória, ele teve destaque em seu penúltimo livro de contos, A Noite Escura e Mais Eu, de 1994. No livro, duas histórias tratam da questão. O conto Você não acha que Esfriou? aborda um conturbado triângulo amoroso sob o ponto de vista da mulher, que se vê entre dois homens, um deles seu marido: Kori que se apaixona pelo amante do marido.

Já o conto Uma Branca Sombra Pálida descreve a visita de uma mãe ao túmulo da filha que se suicidou. No cemitério, a mãe amarga reflexões entre culpa e ódio pelo sentimento que a sua filha Gina nutria pela namorada Oriana. Mas se a visão da mãe é moralista, perpassada de angústia e solidão, também resvala as vezes para um triângulo amoroso, mantido entre ela e a namorada da filha. Apesar de a mãe o tempo todo culpá-la pela morte da filha, acusando-a de suja, há um misto de confronto e troca de desejo entre ela e Oriana, simbolizados pelas cores das rosas deixadas no túmulo: As rosas da mãe são brancas enquanto as da namorada são vermelhas.

O desfecho encaminha o leitor para essa direção, ou seja, um desejo velado da mãe pela amante da filha:

 

Até quando Oriana vai se empenhar comigo nessa polêmica?(...) logo vai conhecer outra, é evidente. Ao lado das suas rosas ressequidas ficarão apenas as minhas rosas brancas. Difícil explicar, mas quando isso acontecer, essa será para mim a sua maior traição.

 

Esta última frase é bastante reveladora nesse sentido, embora denote, como boa parte da obra lygiana, um final aberto, perpassado pela incerteza, pela ambiguidade da dúvida, em geral escolhas da autora distantes do happy-end.

Com Letícia, Romana, Lia e Gina, a autora (mesmo esparsa e superficialmente) acaba utilizando em seus livros um certo leitmotiv que se não ressalta a questão homossexual vai pelo menos abordá-la de forma inequívoca, ainda carente de um estudo específico. Após o lançamento de A Noite Escura e Mais Eu, a crítica despertou para o tema em sua obra, fazendo vagas menções e destacando, meio a contragosto e tardiamente, a abordagem pouco ortodoxa dado pela escritora.

Pertencente à Academia Brasileira de Letras, largamente traduzida e premiada, perguntada sobre a questão homossexual, a autora responde:

 

Creio que posso lidar com simplicidade nesse terreno. Sempre procurei não ter preconceitos, mesmo na época em que eles eram bem mais fortes. Vejo que no destino de qualquer ser ele já nasce querido. Num planeta tão difícil, também o sexo deve pesar? Ora, é muita dificuldade a ser enfrentada.

 

Com a abordagem dessa temática (de forma não-panfletária, não-marginal, e, principalmente, sem transparecer qualquer preconceito), a arte de Lygia Fagundes Telles assume um sentido de libertação porque podemos nos ver nos preconceitos (como também o racismo e o elitismo) das suas personagens, que servem de espelho para nós como atestado da intolerância com o outro.

Cremos, assim, que fica mais plausível associar a sua literatura aos antagonismos tanto hetero quanto homossexual, ocupando a autora um merecido lugar na literatura brasileira contemporânea por conseguir expor em seus livros dores e sacrilégios, pequenas crueldades que se perdem no dia a dia, exercitando uma grande paixão pela causa humana em suas diversas possibilidades de desejo e afeto.



[1] Ciranda de Pedra (54), Verão no Aquário (63), As Meninas (73) e As Horas Nuas, de 89.

[2] Rosa surge em 46, com Sagarana e Lispector em 44, com Perto do Coração Selvagem. Além deles, lançam-se neste período, entre outros: Herberto Salles (Cascalho, 44); Murilo Rubião (O Ex-Mágico, 47); Josué Montello (Janelas Fechadas, 41); Autran Dourado (Teia, 47); e, na poesia, João Cabral de Melo Neto (Pedra do Sono, 42) e Lêdo Ivo (As Imaginações, 44).

[3] Lygia Fagundes TELLES. Ciranda de Pedra. p. 144.

[4] Id. Ibid. p. 98.

[5] Id. Ibid. Ciranda de Pedra. pp. 137.

[6] Id. As Meninas. pp. 195-195.

[7] Id. Oito Contos de Amor. p. 26.

[8] Id. Antes do Baile Verde. p. 56.